quarta-feira, 1 de junho de 2016

Weiβbier / Weizenbier

Confrades,

após novo hiato, dessa vez realmente longo - eu admito - volto para escrever sobre nada menos que o meu estilo de cerveja favorito. Sim, tive minhas escapadas, flertei com APAs, Reds e IPAs, mas a Weizen é maior que tudo isso, é compassiva e piedosa, e apesar das escapadas nunca me deixou. Por isso devo grande parte do meu apreço, além do meu verdadeiro e único amor cervejeiro a esse nobre, ilustre, grande estilo.

A Weizen, Weisses, Weiβes ou como quiser chamar, é para muitos a primeira cerveja "diferente"; com diferente eu quero dizer aquela cerveja que despertou o confrade adormecido em cada um de nos, aquela cerveja que nos libertou das amarras da Pilsen, ou pior, da American Standard Lager (Light Lager). Nesse ponto a Weizen rivaliza com a Red, e em alguns casos a IPA (para aqueles que já traziam em si uma semente rebelde!), mas nenhuma é tantas vezes citada quanto essa cerveja pra lá de bárbara...ups, bávara. 

Muito além de um estilo de cerveja, essa bebida - e seu copo exclusivo - são uma entidade, orgulho supremo para os bávaros, e presença obrigatória entre as produções de todas as cervejarias que se preze. Foi uma longa e árdua pesquisa, mas também muito prazerosa, realizada ao longo de duas semanas aproximadamente, e alguns copos de Franziskaner. Como de praxe, tive de cortar algumas partes, afim de que não se tornásse uma leitura excessivamente demorada, ou mesmo chata. Espero ter conseguido agradar a todos, aos que gostam de um overview, e àqueles dentre os ilustres que lêem os meus posts vorazmente, atrás dos mínimos detalhes. Enfim, boa leitura!


Fonte: Franziskaner

Weiβbier (ou Weissbier) é a clássica cerveja de trigo da região da Bavária, sendo uma das maiores e mais distintas cervejas de toda a Alemanha. Weiβbier quer dizer “cerveja branca” em alemão, e esse nome originalmente servia para diferenciar essa cerveja das Braunbier (Âmbar/Marrom), Rotbier (Vermelha) e Schwarzbier (Escura), antes do recente boom de nomes e classificações cervejeiras que temos visto nos últimos tempos. Fora da Bavária, a maior parte das Weiβbier é conhecida como Hefeweizen, o que siginifica literalmente “levedura trigo” em alemão. Esse nome por sua vez advém do fato de se tratar de uma cerveja de trigo engarrafada sem filtragem prévia, com uma grande turbidez proveniente da levedura em suspensão na bebida pronta. 

De acordo com as leis alemãs, uma cerveja classificada como Hefeweizen, Weizenbier ou Weiβbier (Esses três termos são usados sem grande distinção, mas existe também uma variante filtrada, chamada de Kristallweizen) deve ser produzida usando-se um mínimo de 50% de malte de trigo. A maior parte das Weiβbier, entretanto, utiliza mais trigo do que o mínimo exigido pelas leis, levando entre 60% e 70% desse malte. O restante do mosto é composto por malte de cevada. Entretanto, também há receitas em que nem todo o trigo que compõe a mistura é maltado. 

Fonte: www.wanted.de
Em outros países, onde evidentemente as leis alemãs não se aplicam, a cerveja de trigo pode ser produzida com qualquer quantidade de malte de trigo, ainda que seja difícil alcançar as reais características dessa cerveja utilizando-se menos que 50% de malte de trigo. Fazer cerveja com 100% de grãos de trigo, contudo, seria excessivamente difícil, quiçá impossível, porque esse grão em si não possui casca, de forma que um mosto feito exclusivamente dele  não produziria uma cama de grãos adequada. Dessa forma, cervejas feitas unicamente com malte de trigo são geralmente feitas em laboratórios ou cervejarias piloto, ainda que haja cervejeiros artesanais que eventualmente tentam fazer esse tipo de cerveja, utilizando cascas de arroz para o lauter.

O trigo em si não contribui drasticamente para um sabor típico, muito mais tem sua responsabilidade em termos de mouthfeel e corpo da cerveja, além de criar a clássica espuma – colarinho – típica desse estilo. As proteínas presentes nesse grão também levam à aparência turva da cerveja, a qual tende a ser ainda mais pronunciada caso o cervejeiro opte por não filtrar a bebida.

Origens


Antiguidade


As origens da cerveja de trigo remontam à antiguidade, há cerca de 6000 anos, e provavelmente até antes disso. Os primeiros produtores de cerveja de trigo foram os Sumérios na Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, no que hoje é o Iraque; sabemos disso devido a achados arqueológicos nessa região. Os grãos utilizados por esse povo naquela época eram o Einkorn, o Emmer e o Spelt, que são  antecessores genéticos do trigo atual. Nessa linha, a imagem mais antiga do consumo de cerveja, que data de aproximadamente 3400 AC, representa justamente o consumo de uma cerveja de trigo. Trata-se da ornamentação de um vaso de argila, ilustrando a cena de duas mulheres bebendo cerveja através de canudos. Os egípcios, seguindo o pioneirismo dos sumérios, sem grande imaginação para arriscar o uso de outros grãos, seguiram produzindo a maior parte de suas cervejas a partir de malte de trigo. 

Outra prova das raízes ancestrais do consumo de cervejas de trigo é trazida pelo Código de Hamurabi, o mais antigo conjunto de leis. Ele data de 1700 AC e contém regras claras sobre a fabricação e o serviço de cerveja. Já em solo germânico a representação mais antiga que atesta o consumo dessa ilustre cerveja é igualmente uma ornamentação em uma ânfora de argila, encontrada em 1934 em um túmulo tribal próximo ao vilarejo de Kassendorf, próximo à Kulmbach, no norte da Bavária, e feita há aproximadamente 2800 anos. O achado pode ser visto no Museu da Cerveja de Kulmbach. Dentro da ânfora, cientistas foram capazes de isolar resíduos de malte de trigo escuro.

Bavária


Fonte: shop.fcbayern.de
Atualmente, sempre associamos as Weiβbier à Bavária, onde ela é feita mediante o uso de leveduras de alta fermentação. Isso faz com que a Weiβbier seja uma das únicas Ales produzidas nessa cultura cervejeira tradicional, considerada o berço das Lagers. As origens geográficas das Weiβbier modernas remontam aos séculos 12 e 13 na Bohemia, atualmente República Tcheca, de onda a produção de Weiβbier se alastrou para a região vizinha da Bavária. Ali, em 1520 (outras fontes falam em 1548), a família Degenberg, uma dinastia nobre do vilarejo de Schwarzach, obteve, da dinastia reinante, os Wittelsbach da Bavária, o direito e privilégio exclusivo e perpétuo da produção de cerveja de trigo - em troca, os Degenberg pagavam anuidades à família Wittelsbach.

Vale lembrar que quatro anos antes, em 1516, fora celebrado o início do Reinheitsgebot naquele mesmo estado (seguindo a proibição de uso de trigo para a produção cervejeira já vigente na cidade de Munique desde 1447). Essa lei, diferente do que muitos gostam de dizer – de que seu objetivo era apenas de cuidar da pureza da cerveja – teve suas origens em questões econômicas e de poder por parte da nobreza da época. Isso porque o uso de trigo, centeio - e virtualmente qualquer outro grão disponível - na fabricação de cervejas estava “roubando” os grãos necessários à produção de pão em uma época em que as colheitas de trigo viviam altas e baixas, já sendo por si só uma cultura de baixo rendimento. As autoridades da época sabiam que era mais plausível assumir que a população abriria mão do pão de trigo que da cerveja feita a partir desse grão. Mediante a nova lei, então, a cerveja só poderia ser produzida a partir do uso de cevada. Contudo, não há regra que a todos se aplique, de forma que a nobreza era autorizada a seguir utilizando trigo na produção de suas cervejas, detendo assim um privilégio pra lá de exclusivo, além de draconiano.

Mas voltando aos Degenberg (agraciados pela nobreza como os produtores exclusivos dessa bebida exclusiva), para o desgosto dos duques bávaros, o privilégio dado a essa família e a seus vassalos acabou por mostrar-se uma mina de ouro, provendo àquelas pessoas lucros muito mais altos do que o antecipado. Em consequência disso - e quiçá pela grande quantidade de cerveja de trigo que acabava indo não para as mesas dos nobres, mas para as tavernas frequentadas pelos plebeus - assim como nos tempos que antecederam a criação do Reinheitsgebot, a alta produção desse estilo acabou por desviar uma grande quantidade de trigo dos fornos dos padeiros locais para as panelas dos cervejeiros Degenberg. Dessa forma, em 1567, um aborrecido duque Albrecht V declarou ser a cerveja de trigo uma “bebida dispensável, desprovida de propriedades nutritivas e sem a capacidade de prover força quando de seu consumo, que apenas fomenta a embriaguez”, proibindo a sua produção em todo o seu reino. Infelizmente para ele, por força da etiqueta da sociedade feudal, ele não poderia revogar o privilégio dado pelos seus pais à família Degenberg, de modo que se viu obrigado a reforçar o privilégio, não sem antes exigir um generoso aumento na taxa anual paga pela família afortunada (vale lembrar que nessa época a produção de Weiβbier foi proibida repetidas vezes, já que sempre se achava um jeito de voltar a produzi-la, o que levou os Degenberg a ter que batalhar por sua exclusividade mais de uma vez).

A nova ordem


Bastian  Schweinsteiger comemora outro título do
Bayern München com um generoso copo de Paulaner.
Em 1602, entretanto, o duque bávaro acabou por ter sorte. Naquele ano, o Senhor Hans Sigmund von Degenberg faleceu sem deixar um herdeiro. Isso significa que o duque Maximilian I da dinastia Wittelsbach pôde, finalmente, requerer o direito à exclusividade da produção de cerveja de trigo; ele prontamente transformou a produção de Weiβbier em um monopólio familiar, fundando a sua primeira cervejaria no ano de 1605, no centro de Munique, exatamente onde hoje fica a mundialmente famosa Hofbräuhaus; mais tarde, em 1607, na cidade de Kehlheim a próxima cervejaria foi aberta. Outras seguiriam, recebendo o nome de Weiβe Brauhäuser. 

O duque em si, contudo, não era nenhum homem de negócios amador, nem queria ele mesmo se aventurar em uma tarefa para ele nova, de modo que tratou logo de contratar o antigo mestre-cervejeiro da família Degenberg, o senhor Sigmund Bettl. Logo, toda taverna era obrigada a servir Weiβbier produzida exclusivamente pela rede de cervejarias de propriedade dos duques da Bavária, as quais por sua vez se alastravam por todas as cidades do reino. O duque firmou contratos que, além de lhe garantirem o monopólio, poderiam ser cancelados quando ele bem o entendesse, e que passavam automaticamente para os herdeiros da família em caso de falecimento. O argumento de que o trigo deveria servir unicamente para a produção de pão foi revogado pelo duque, em detrimento do que havia dito o seu avô anos antes. Esse novo monopólio de produção de cerveja de trigo (chamado de Weizenbierprivileg ou Weizenbierregal) foi responsável por cerca de um terço da receita dos governantes bávaros naquele tempo. As vendas resultantes da produção das cervejarias da cidade de Straubing, entretanto, iam diretamente para os cofres familiares, passando longe dos cofres públicos. Para se ter uma ideia da força e importância da produção de Weiβbier nessa época e nessa região, as tavernas eram obrigadas a servir Weiβbier, sob pena de terem a sua licença de funcionamento suspensa. 

Weizenbier acompanhada da típica paisagem bávara.


Entretanto, por mais que a venda fosse obrigatória, e incidissem impostos próprios a esse produto, diferente do que se possa imaginar o preço não era elevado, sendo até mesmo modesto para a época, de modo que o retorno fosse garantido, mas não exagerado. Dessa forma o duque foi capaz de, com base nas receitas provenientes dessa cerveja, saldar as dividas feitas pelo seu pai, e ainda deixar uma casa financeiramente arrumada para o seu filho Ferdinand Maria.

O declínio


Esse monopólio durou aproximadamente 220 anos, mais precisamente até o dia 6 de agosto 1798, quando vários monastérios e civis obtiveram igualmente a permissão de produção de Weiβbier. Nessa época ainda existiam vários Weiβes Brauhaus, nas cidades de Cham, Grafenau, Kelheim, Regen, Traunstein, Vilshofen e Weilheim. O fim do monopólio somente foi possível porque, naquela época, o consumo de Weiβbier estava sofrendo fortes baixas, levando às cervejarias dos duques a prejuízos, ao passo que viam o crescimento vigoroso em vendas das novas cervejas Lager. Assim, os duques bávaros ofereceram os direitos à produção de cerveja de trigo para quem quisésse comprar ou em concessão, o que efetivamente ocorreu, por parte tanto de monastérios quanto de cervejeiros civis. A exceção foi a Weiβes Hofbräuhaus, em Munique, que permaneceu como propriedade do Estado. Nesse local, em 1871 foi produzida a última Weiβbier “estatal”; o concessionário cervejeiro nessa época (1855 até 1873) era um ‘determinado’ Georg Schneider I. Ainda hoje esse local é um pub, pertencente a um Schneider, a sexta geração do famoso Georg Schneider.

Entretanto, acabou que nenhum dos novos produtores foi capaz de reanimar o mercado das Weiβbier, simplesmente porque o estilo tinha saido do gosto popular. No século 19, em partes devido ao aperfeiçoamento das técnicas de produção cervejeira, as cervejas Lager estavam ganhando cada vez mais em qualidade, ficando mais competitivas que as Weiβbier. A queda foi tão acentuada que, em 1812 já restavam apenas duas cervejarias a produzir Weiβbier naquela região. Em 1872, os duques bávaros finalmente desistiram de fazer dinheiro com o monopólio da produção de Weiβbier, e venderam os direitos dessa exclusividade àquele mesmo Georg Schneider I, que viria a fundar a sua própria cervejaria ainda naquele ano.

O retorno


Uma Weizen num clássico Maβ.
As vendas de Weiβbier continuaram a cair constantemente, até que nos anos 1950 e início dos anos 1960 chegarem a representar não mais que 3% do total de cerveja produzida na Bavária. Muitos cervejeiros pararam de produzi-la, de forma que o estilo parecia fadado à extinção. Apesar disso, Georg Schneider e seus descendentes mantiveram a sua produção, ainda que a um volume bastante modesto. Eles passaram a se destacar como especialistas em Weiβbier, o que se mostrou uma estratégia de sucesso a longo prazo, já que no final dos anos 1960, as vendas do estilo inverteram a sua tendência de até então, voltando com força total. Uma repentina -e até certo ponto inexplicável- reversão no gosto dos consumidores acabou por fazer as vendas de Weiβbier explodirem, não apenas na Bavária, mas em todo o mundo naquele momento. Essa tendência jamais voltou a se inverter. 

Atualmente, a Weiβbier é o estilo de cerveja mais popular na Bavária, ocupando mais de um terço do mercado naquela região. Na Alemanha como um todo o estilo representa um décimo do mercado, e pode ser encontrada até mesmo nas regiões mais distantes da Bavária, como por exemplo no pub Zum Ürige, em Düsseldorf, um local sabidamente distante da cultura cervejeira bávara. Ainda que as cervejas Helles dominem as vendas nos Biergarten Bávaros, um copo de Weiβbier continua a ser parte indispenável das Brotzeit, espécie de segundo desjejum alemão, tomado na metada da manhã. Além disso, na atual onda de cervejas artesanais, as Weiβbier vêm ganhando cada vez mais força entre aqueles que produzem cerveja em casa, desde o Japão até o Brasil. Já a família Schneider mudou o seu local de produção para a cidade de Kelheim, em 1927, onde permanece até hoje.

A produção


Fonte www.bayrisch-bier.de
Pelo fato de o trigo possuir uma grande quantidade de proteínas, as Weiβbier modernas geralmente desfrutam de um longo período de guarda, a fim de quebrar as proteínas e reduzir a viscosidade do mosto. Na Alemanha em si, a decocção é amplamente utilizada para o mesmo fim. Uma guarda à temperatura de 44ºC-45ºC é utilizada para desenvolver o àcido ferúlico no mosto. Esse àcido, entretanto, é apenas um composto interediário, posteriormente transformado pelo fermento em 4-vinil-guaiacol, um fenol com forte aroma de cravo, característica típica das Weiβbier. A densidade geralmente se encontra entre 11.5º e 13.2º Plato e a fermenação encerra com alguma quantidade de açúcar residual, algo em torno de 3ºPlato; o teor alcoólico resultante encontra-se entre 5% e 6%. Todavia, há aquelas variantes chamadas de Weizenstarkbiere, com uma densidade original de até 20º e um teor alcóolico superior a 8%. A bebida pronta conta com aproximadamente 220KJ por 100ml.

A Weiβbier é fermentada por uma família de leveduras muito próximas genéticamente, responsáveis pelo aparecimento dos clássicos sabores inerentes a esse estilo (entre elas a Torulaspora delbrueckii). Enquanto o trigo em si contribui com certa leveza e traços de acidez, os aromas de cravo (4-vinil-guaiacol), chiclets, banana (isoamyl acetate), e defumado (4-vinil-syringol) que caracterizam as Weiβbier são todos resultados da fermentação por essas leveduras especiais. Por muitos anos cervejeiros fora da Bavária se referiram a essas leveduras como “Leveduras Weihenstephan”, devido ao fato dessa cervejaria em especial deter, durante muito tempo, o único banco de leveduras genuinamente próprias para Weiβbier do mundo.

Há também cervejarias fora da Alemanha, particularmente nos Estados Unidos, que usam a denominação Hefeweizen para descrever as cervejas de trigo fermentadas por leveduras standard de lager ou ale; contudo isso está incorreto, pelo fato de essas cervejas não levarem nenhuma característica aromática ou de sabor das clássicas Hefeweizen. 

Ainda que muitas vezes sejam usados fermentadores cônicos, as leveduras utilizadas para a produção de Weizenbier floculam no topo do líquido uma vez terminado o trabalho, sendo perfeitas para o uso de fermentação aberta. Muitos produtores de Weiβbier consideram que o uso de fermentação aberta acentua o perfil de éster da bebida, preferindo essa técnica em sua produção. A primeira fermentação geralmente ocorre a temperaturas mais altas, entre 20ºC e 22ºC, reforçando a formação de ésteres, e é completada em 2 a 4 dias. Após um curto período de maturação em tanques fechados, a temperaturas próximas de 10ºC, geralmente entre 10 e 14 dias, a cerveja está pronta para envase. Tradicionalmente as Weiβbier são refermentadas em garrafa, usando Speise (Sepise quer dizer “refeição” em alemão; Speise é mosto com leveduras novas) como priming para que sejam atendidas as leis de pureza. A refermentação pode ser realizada pela levedura original, mas muitas vezes são adicionadas leveduras para lager devido à sua textura mais floculada na garrafa; as leveduras de alta fermentação ajudam em termos aromáticos da cerveja pronta, leveduras de baixa fermentação combatem a formação de componentes indesejados. Ambas as leveduras, tanto de alta quanto de baixa fermentação, diferente do que se possa esperar (principalmente no caso das de alta fermentação, claro), se depositam no fundo da garrafa depois de terminado o seu trabalho de refermentação. 

Infelizmente, a real refermentação em garrafa tem se tornado muito rara, especialmente nas grandes cervejarias, sendo a maior parte das Weiβbier de fora da Bavária pasteurizadas. Nesse caso a maturação ocorre em grandes barris próprios, a uma temperatura de aproximadamente -1ºC. Esse processo leva a aromas menos acentuados e clássicos na cerveja pronta. A refermentação em garrafa é responsável por um sabor mais fresco, além de ser capaz de atingir altos níveis de carbonetação, até quatro volumes (8 g/L), cerca de 30% mais alto que uma cerveja pilsen.

Na fase de estabilização a cerveja é, muitas vezes, filtrada e em seguida recebe novamente as leveduras (nesse momento já mortas devido à alteração súbita de temperatura) e demais elementos previamente filtrados. Dessa forma é possível alcançar uma validade maior do produto, mantendo o mesmo sabor mediante retenção de todos os componentes e sem que se faça necessária a pasteurização de toda a produção. Quando do uso de leveduras ainda vivas (quando a bebida não é filtrada), por vezes usa-se a técnica de aquecer a cerveja rapidamente, de forma a imobilizá-las, mas sem destruir a sua estrutura.

As variedades


Fonte: Franziskaner
A Weiβbier pode se apresentar em algumas variantes. Existe a clássica Weiβbier ou Hefeweizen, uma cerveja clara com muita levedura suspensa e coroada com uma espessa camada de espuma; depois existe a Dunkelweizen, que é uma Weiβbier feita com a adição de maltes escuros, tais como Caramel, Crystal ou simplesmente maltes torrados. As Weiβbier de coloração âmbar são muitas vezes chamadas “Bernsteinfarbenes Weisse”, sendo muitas delas consideradas especialmente tradicionais, uma vez que remontam às primeiras cervejas de trigo, prévias à popularização dos maltes claros. Também existe uma versão com baixo teor alcoólico, a chamada Leichtes Weisse. Depois existe a Weiβbier filtrada, chamada Kristallweizen, as Dunkelweizen, assim como a Weizenbock (uma Bock feita com malte de trigo). Em algumas ocasiões os cervejeiros também apostam em Weizendoppelbock ou Weizeneisbock, ambas equivalentes às suas primas feitas exclusivamente com malte de cevada. Em comum as cervejas Weizen têm, além disso, o fato de levarem uma quantidade bastante modesta de lúpulos, de forma a serem amplamente apreciadas entre aqueles que não gostam do amargor trazido por essa nobre erva.

A apresentação


Fonte: www.strandzand.nl
Todas são servidas em copos altos (tradicionalemente, para quem já foi à Bavária sabe que, em alguns casos, é possível pedir 1L de Weizen, e nesse caso a cerveja será servida no não menos tradicional Maβ), largos e grossos em sua base (para que se possa brindar batendo a base, e não o topo ou o meio do copo), com uma elegante cintura e uma posterior subida dramática e de diâmetro cada vez maior até sua abertura. A alta carbonetação e alto teor de proteina combinam para produzir uma espuma bastante voluminosa, sendo talvez a sua caracetrística mais marcante, e responsável pelo formato do copo (também chamado de Weiβbierstutzn, leva que as bolhas formadas no fundo tenham que percorrer um longo caminho até o topo, deixando a bebida em constante movimento). Além disso, o copo alto faz com que, toda vez que se termina de sorver a bebida, o movimento de levar o copo à sua posição vertical promove com que a bebida ‘caia’ dentro do copo, levando à nova formação de espuma. A bebida pode passar de diferentes formas da garrafa ao copo, entretanto são duas as formas mais comuns. A primeira é virar a garrafa de Hefeweizen cuidadosamente no copo inclinado para alcançar uma espuma generosa, mas controladamente, até que reste apenas cerca de um quinto da bebida na garrafa; em seguida girar mais ou menos vigorosamente o vasilhame, segurando pelo seu pescoço, com o que restou do líquido no fundo da garrafa, afim de que a levedura depositada em seu fundo se espalhe pelo líquido, causando grande formação de espuma, antes de completar o copo.

A segunda forma é mais dramática: segura-se o copo em posição quase vertical e, após remover a tampa da garrafa, vira-se essa de uma só vez de cabeça para baixo dentro do copo. Por maior que seja o susto inicial, assim que a bebida dentro do copo alcance a boca da garrafa, esse modo permite um controle total sobre a velocidade de envase e formação de espuma. Além disso, devido à entrada “em solavancos” de ar na garrafa, esse promove que a bebida bata no fundo da garrafa (agora o seu topo), misturando bem a levedura ali depositada. 

Vale lembrar apenas que é necessária uma boa lavagem da garrafa antes de entorná-la dessa forma, uma vez que ela ficará submersa na bebida. Além disso, seja qual for o método empregado, é sempre bom lavar o copo de Weizen previamente com água fria, de forma a resfriar as paredes do copo, garantindo um melhor controle e retenção da espuma (além da questão de higiene, claro). Também é importante guardar a garrafa sempre em posição vertical, para que a levedura se deposite no fundo da garrafa; se a garrafa permanecer na horizontal e a levedura se espalhar pela parede dela, assim que o conteúdo for virado no copo a levedura se espalhará de forma muito rápida, levando a uma produção excessiva de espuma.

Existem algumas teorias de que foi justamente essa bendita levedura em suspenção na Weiβbier a responsável pelo seu retorno impactante na década de 1960. Os meados da década de 1960 viram um crescente interesse em alimentos naturais, e a levedura cervejeira é uma excelente fonte de vitaminas.


Fonte: Carl-Theodor
Na Alemanha, a Hefeweizen (atualmente!) jamais é servida com fatias de limão no copo, tradição que se alastrou fortemente, por exemplo, nos Estados Unidos, nas décadas de 1980 e 1990. Entretanto, se engana quem pensa que isso é um modismo moderno. A questão é que, antes de haver os modernos controles de qualidade nas cervejarias e tavernas (como pode ser lido em outros posts, como por exemplo, esse), não era comum girar a garrafa de Hefeweizen para levantar a levedura e lançá-la ao copo. Isso porque, além do fato de a levedura trazer notas bastante amargas consigo, havia o risco de haver impurezas no fundo da garrafa. Caso, contudo, a levedura acabasse por cair no copo - seja por malandragem, seja por falta de destreza por parte do garçom -, era habitual que fosse prontamente jogada uma rodela de limão na bebida, a fim de neutralizar o amargor. Hoje o assunto é visto de outra forma, muito em função de a bebida ser isenta de impurezas, e a levedura ser neutralizada muito antes de chegar à mesa do consumidor. Em termos práticos o aroma do limão se sobrepõe de forma muito intensa aos aromas naturais da cerveja, muito mais delicados, e o óleo proveniente da casca da fruta destroem de forma muito rápida a camada de espuma. 

Dessa forma, quem pedir pela fatia de limão em sua Weiβbier nos Biergarten da Bavária geralmente será agraciado com sorrisos amarelos por parte de quem serve.


Wir hopfen alles Gute!
Wilhelm Stein

Referências

  • The Oxford Companion to Beer - Garrett Oliver
  • Let Me Tell You About Beer - Melissa Cole
  • American Institute for German Beer

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